Nasci no Candomblé. Meu lugar social de fala começa ali, por uma razão simples e profunda: nasci em um terreiro. Sou consagrada a Ossaim e a Oxum, no Candomblé de Ketu. Carrego comigo a presença do povo iorubá e a memória do Recôncavo baiano, território onde a herança africana floresceu com força matriarcal.
Trago comigo minha mãe e as muitas mães de axé que me formaram. Aprendi cedo que tradição não é apenas rito; é também memória. E memória precisa ser dita, registrada e transmitida. Como ouvi tantas vezes: só morre aquilo que esquecemos.
O conceito de “lugar de fala”, trabalhado por Djamila Ribeiro, ajuda a compreender esse ponto de partida. Toda fala vem de algum lugar. Toda palavra carrega um chão. No caso das mulheres negras, das mães de santo e das benzedeiras, esse lugar foi muitas vezes silenciado.
Grande parte das mulheres do axé que me antecederam viveu e transmitiu saberes fundamentais, mas raramente teve espaço para registrá-los ou interpretá-los publicamente. Escrever sobre o benzimento, para mim, também é um gesto de cuidado com essa tradição. Não quero que o benzer desapareça na sombra do esquecimento. Não quero que morra.
Por isso insisto em reconhecer a presença negra e matriarcal que sustenta o Candomblé e tantas outras práticas de cuidado espiritual no Brasil. O pensamento também nasce nesses territórios. Como lembra Conceição Evaristo, durante muito tempo não se esperou que mulheres negras pensassem ou produzissem reflexão pública. Ainda assim, elas pensaram, ensinaram e sustentaram comunidades inteiras.
Escrevo também por essas mulheres.
Recordo uma experiência significativa. Estive no Sesc, em Belo Horizonte, no lançamento do livro Lugar de fala, de Djamila Ribeiro. Quando me apresentei, disse a ela: sou consagrada a Ossaim e a Oxum, sou benzedeira e trabalho o conceito de Orí no benzer. Djamila respondeu sorrindo: sou filha de Oxóssi e filha de benzedeira. Rimos. Depois falamos sobre filosofia. Eu disse que havia estudado na UFMG; ela contou que estudou na USP. Rimos outra vez.
Naquele encontro havia reconhecimento.
Um saravá às pensadoras negras e às mulheres do axé que vieram antes de nós. E um saravá também a quem segue escutando, pensando e mantendo essas tradições vivas.


