“Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês jamais aprenderão comigo.”
Quando ouvi Angela Davis dizer essas palavras, compreendi que havia ali um convite. Passei a ler Lélia Gonzalez com atenção renovada e encontrei, em Lugar de Negro, escrito com Carlos Hasenbalg, um pensamento capaz de iluminar muitas das perguntas que também atravessam minha caminhada.
Como aprendiz de filosofia e benzedeira, penso que somos chamados a despertar todos os dias. Despertar o pensamento. Despertar a memória. Despertar o Orí.
Meu lugar social de fala é o candomblé. Nasci entre mulheres que benziam, escutavam, acolhiam e curavam. Minha mãe, minha avó e tantas outras benzedeiras carregavam um conhecimento profundo, mas raramente tiveram reconhecido o direito de falar sobre ele. Foram guardiãs de uma sabedoria que muitas vezes permaneceu invisibilizada.
Foi também por elas que fui estudar Filosofia na UFMG. Queria conhecer os grandes pensadores, mas também compreender os mecanismos que silenciam determinados saberes e determinados corpos. A filosofia me ensinou muito. Também me mostrou que existem conhecimentos ancestrais que não cabem apenas nos livros: vivem na oralidade, na experiência, nas folhas, na escuta e na memória das mulheres que vieram antes de nós.
Em Assim fala a benzedeira, trabalho com folhas, pétalas, rezas e com o conceito de Orí, a divindade pessoal que habita cada pessoa. Cuidar do Orí é fortalecer a própria caminhada. É alimentar a cabeça com conhecimento, equilíbrio e consciência para que cada passo encontre seu destino.
Por isso digo que benzer também é um ato político. Cada benzimento afirma uma tradição que insiste em permanecer viva. Cada folha tocada recorda uma ancestralidade que se recusou ao esquecimento. Cada pessoa que atravessa minha sala reafirma que cura também é memória.
Sou filha de Ossaim. As folhas são meu instrumento de trabalho e minha forma de diálogo com o sagrado. Delas aprendi que nenhuma árvore cresce sem raiz, e nenhuma comunidade permanece viva quando esquece suas mulheres, seus mais velhos e suas histórias.
E o Recôncavo?
Ah… o Recôncavo nunca saiu de mim.
Volto sempre que posso. Meu terreiro permanece lá. Minha memória também. A gameleira que habita meu quintal me lembra Iroko, senhor do tempo, guardião da permanência. Toda vez que a vejo, recordo que o tempo não apaga aquilo que continua sendo cultivado.
Por isso escrevo. Por isso benzo. Por isso sigo falando.
Saravá! Que seu Orí desperte, se fortaleça e encontre, todos os dias, o caminho da sabedoria.
