Minha participação no projeto Benza a Benção, realizado pelo Sesc Mercado das Flores, me colocou em diálogo com profissionais e pesquisadoras de diferentes áreas, reunidos em torno da memória e das práticas do benzer.
Fui convidada, em fevereiro, para uma conversa a partir da experiência. Na ocasião, foi exibido o documentário do qual participo, no qual relato minha trajetória como benzedeira. Ao longo do filme, a memória aparece como eixo central: é por meio dela que as experiências se organizam e ganham continuidade.
Na roda de conversa que se seguiu, estava presente Anne, antropóloga alemã, que trouxe uma questão direta: como pensar a dimensão teórica do benzer?
Essa pergunta também me atravessou durante minha formação em Filosofia pela UFMG. Ao responder, recuperei uma formulação de Angela Davis: há muito a aprender com Lélia Gonzalez. Apontei, assim, para a centralidade do pensamento produzido por mulheres negras na compreensão dessas tradições.
Mencionei ainda que, entre suas vindas ao Brasil, a maior parte das passagens da antropóloga havia sido por Salvador, território fundamental para a presença iorubá e para a formação das práticas que hoje reconhecemos no benzer.
Dias depois, ela marcou um encontro em minha sala de trabalho. Realizamos um jogo de búzios, no qual Oxóssi se fez presente. A partir dali, o interesse pela tradição se aprofundou.
A antropóloga, que investiga o benzer e suas dimensões matriarcais, solicitou conhecer um terreiro. Seguimos para os Irmãos de Aruanda. Ali, a experiência se desloca do discurso para o corpo.
A mata, os caboclos, os pretos-velhos, a presença de Ogum. Acendemos vela para o Orí, firmando o que nos orienta. Fomos benzidas com fogo e guiné, acompanhadas por cantos conduzidos por minha irmã, em saudação aos orixás.
O benzer não se explica apenas. Ele se vive.
